Ruy 60 anos

Quando a ficha cai, não há como se fazer de forte. Você, agora, possui uma deficiência. E ela vai acompanhá-lo pelo resto da vida. Primeiro, vem a perplexidade. "Por que eu?" Depois, a sensação de haver sofrido uma condenação - sem motivo aparente ou aviso prévio. Quer acordar do que tenta convencer-se ser um pesadelo, mas é cada vez mais tragado pela consciência de sensações novas que preferia não estar vivendo. Medo. Dor. Revolta. Incerteza. Começa a enumerar coisas que fazia e não poderá fazer nunca mais. Se pega duvidando que valha a pena viver e sente impulso de entregar-se. Chora. Ou não. Enfim, encara a verdade: sua vida mudou. E percebe que precisa decidir como quer vivê-la de agora em diante. A esse processo, do qual ninguém escapa, se dá o nome de luto. Histórias de quem já passou por isso, como as mostradas nesta reportagem, podem ajudar a atravessá-lo.

O psicólogo Ruy Fernando Barboza, 60 anos, também advogado e jornalista, perdeu o movimento da perna esquerda - abaixo do joelho - por causa de uma bala perdida. Um tiro de fuzil, recebido na Linha Amarela, no Rio de Janeiro, em 2002. Havia um mês que Ruy trocara viver em São Paulo por Florianópolis. Ele, que faria conferências no Congresso Brasileiro de Psico-Oncologia, em Olinda, desdobrou a passagem Floripa-Recife para passar o fim de semana no Rio. "Havia um tiroteio entre traficantes", relembra. "Era meia-noite. Meu filho André dirigia o carro, e eu estava sentado atrás dele. Ao meu lado, minha ex-mulher, Maria Elisa, e ao lado dele, na frente, Taissa, a namorada. A bala perdida de um fuzil AR15 atravessou a lateral do carro e o meu quadril, ficando alojada (até hoje) na coxa direita." O projétil destruiu parte da cabeça do fêmur, o osso púbico, 10 centímetros da uretra, um pedaço da próstata e seccionou os dois ramos do nervo ciático. Ruy sofreu nove cirurgias para fixar uma prótese (placa e pinos) no fêmur, reconstituir a uretra e receber um enxerto nervoso nos dois ramos do ciático. "Foi uma tentativa de propiciar alguma recuperação de movimento ou de sensibilidade na perna esquerda, que não deu em nada. Não tenho movimento nem sensibilidade nessa perna, do joelho para baixo, a não ser numa pequena faixa na área lateral interna, que é sensível ao toque. Além disso, fiquei com pouca sensibilidade em outras áreas do períneo e da perna, tive embolia pulmonar - porque fiquei também com uma trombose venosa profunda na perna esquerda -, tenho dores que me impedem de ficar em pé muito tempo e outras que tornam incômodo também ficar sentado." Estilhaços microscópicos da bala na perna ocasionam a formação de granulomas, abscessos e infecções, tornando necessárias novas cirurgias para drenagem e limpeza. "Fiquei muitos meses sem andar. Aos poucos, graças a muita fisioterapia, fui saindo da cadeira de rodas para usar um andador, e, depois, muletas. Hoje uso bengala. Consigo dirigir (carro automático, é claro), ando mancando e me desequilibro com alguma freqüência, embora tenha caído poucas vezes." No caso de Ruy, as seqüelas do acidente geram uma sensação recorrente de que o pesadelo de seis anos atrás ainda não acabou.

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