Sem medo do escuro

Ruy, Thiago, Manuela e Marco viveram o luto de diferentes perdas quando se viram frente a frente com a deficiência

Reportagem: Silvia Marangoni

Foto: Fabio Braga

Fonte: Revista Sentidos



Tiago 24 Anos

Thiago Amaral de Azevedo Sene Silva, 24 anos, viajava com amigos da escola para Porto Seguro (BA) para celebrar a formatura do terceiro ano do ensino médio. Conversavam animadamente e bebiam cerveja. "Na frente de onde estávamos havia um pier. Resolvi mergulhar de cabeça, sem perceber que ali havia um banco de areia. Horas depois, estava em um avião fretado por meus pais, que me esperavam em São Paulo. Entrei no hospital com 1,80 m e 70 quilos. Meu corpo era atlético por conta dos vários esportes que praticava. Tive pneumonia, escaras e infecção urinária." Quarenta dias depois, ao ser colocado sentado na cama, assustou-se com o que viu. "Minhas pernas tinham quase a circunferência de meus punhos. Os dentes estavam amarelados e escuros, por causa dos antibióticos. Quase desmaiei."

Durante o perído de internação, conta ter ouvido todo tipo de opiniões: "Que eu nunca mais andaria, para ter esperança pois voltaria a andar, que não teria vida sexual, que teria vida sexual. Tive de me esforçar para manter o foco."
Thiago conta que encontrou força no apoio dos pais. "Eles se revezavam em turnos de 12 horas para ficar comigo. Um ficava das 9 da manhã até 9 da noite, quando o outro assumia. Eles viveram para mim. Abdicaram até de estar um com o outro por minha causa."

Sessões de terapia o ajudaram a colocar o futuro em perspectiva. "A superação acontece quando você deixa de se ver como deficiente, aceita sua condição e passa a se enxergar como uma pessoa normal. Hoje, vivo cada dia como se fosse o último. O período de luto foi imprescindível para minha aceitação e crescimento. Só consigo falar dele porque acredito tê-lo deixado para trás. Sei que não posso esperar uma cura divina, porque a vida é agora. Nao perco a esperança na medicina, mas acredito que o benefício das célulastronco para casos como o meu será real só daqui a 15 anos."

"PROCUREI NÃO NEGAR O QUE SENTIA
"Muitos anos de psicoterapia, em várias procuras e formações (fiz formação em psicanálise, análise bioenergética e psico-oncologia, mas estudei também gestalt, terapia comportamental, terapia cognitiva, kum nyie, yoga... tudo isso antes do fuzilamento), me ensinaram a expressar os sentimentos, quanto possa - embora eu tenha também aprendido uma saudável contenção, que também é necessária na vida. O que eu sempre procurei não negar, foi tudo o que sentia. Chorava, por exemplo, nas sessões de fisioterapia, ou nos testes-diagnósticos, ao constatar que não podia movimentar os dedos do pé esquerdo, e o próprio pé. Nunca segurei esse choro, por mais que os médicos e paramédicos, muitas vezes, não soubessem o que fazer com ele. Expressei minha raiva, minha impotência, muitas vezes, xingando e chorando também. E minha tristeza. Também nunca deixei de brincar e fazer piada, mesmo as de mau gosto e que pudessem ser resultado de pura negação - que é também uma defesa saudável e necessária, ressalve-se -, quando me
ocorriam."

"Há dias em que me sinto como se tivesse sido assim a vida inteira. Mas ainda me revolto muito quando minhas limitações são tratadas com desrespeito por pessoas que, vendo minha dificuldade de andar com a bengala, se apressam para eu não ficar em primeiro lugar na fila"
RUY FERNANDO BARBOZA

"FINGIR QUE ESTAVA TUDO BEM DEIXOU DE SER NECESSÁRIO
"O luto que vivi foi profundo e intenso, com alternância de raiva, de culpa, de negação e de perda. A depressão é inevitável. Assim como a necessidade de dar resposta ao desejo de criar os filhos. Bateu um vazio enorme. Como ser pai, ensinar a andar de bicicleta, construir carrinhos de rolimã e ser alguém em quem eles confiem e se espelhem? No meio do vazio e da deprê, uma amiga disse: 'Você é o pai deles. É você que eles querem. Não existe alternativa a este fato.' Isso calou fundo. Mudei minha atitude. Enxerguei a encruzinhada: ou você se empodera e é protagonista de sua vida ou entrega os pontos e é cuidado. Neste processo, fingir que está tudo bem foi essencial. Eu ia aceitando realidades provisórias. O desmoronamento do casamento, a sexualidade, o retorno ao trabalho, a estratégia para ser pai, a dependência, a adaptação da casa, tudo foi sendo resolvido ao meu tempo, até que fingir deixou de ser necessário."
Marco Antônio, 43 anos

"Em 1993, estive na Alemanha, onde visitei uma feira de tecnologia assistiva e alguns centros de reabilitação. Ter visto, na prática, que existe vida após a deficiência oxigenou meus objetivos"
MARCO ANTÔNIO PELLEGRINI

"EU VIVIA COMO COADJUVANTE DE MINHA PRÓPRIA VIDA
Demorei para me conscientizar de minha condição. Passei dois anos preocupada em descobrir se o meu problema de saúde era um câncer de intestino. Fiz várias cirurgias, focada na descoberta do diagnóstico. Aos poucos, adquiri consciência de que as seqüelas me acompanhariam e senti o peso da realidade. Eu tinha 35 anos e minha vida, até então, havia sido exclusivamente focada em meu marido e meus filhos Thaís, de 9 anos, e Vítor, de 5. Eu não tinha metas nem sonhos. Havia me deixado para segundo plano, como coadjuvante de minha própria vida. Sentia-me no fundo do poço. A deficiência só me fez piorar. Busquei ajuda na psicoterapia. Iniciei o processo com a meta de resgatar minha auto-estima e redefinir meus objetivos e sonhos. A psicoterapia me permitiu perceber que eu precisava me reerguer para, então, ter condições de enfrentar minha deficiência."

"Quando me tornei deficiente, minha filha Thais, então com 9 anos, revoltou-se porque abandonei minhas funções de mãe. Ela viu-se obrigada a cuidar do irmão. Na época, se distanciou de mim. Hoje, nossa relação é boa"
MARIA MANUELA CUNHA

"TIVE PROBLEMAS COM AS PSICÓLOGAS QUE ME ATENDERAM
"Passei por um período nebuloso, confuso e difícil. Senti medo, impotência, culpa, raiva, pena de mim. Mandei uma carta para minha namorada terminando tudo. Aprendi a entender as pessoas que desistem da vida. Perguntava: por que eu, se há tanta gente que rouba e mata. Por que eu? Fiquei tetraplégico. No hospital, me indicaram o serviço de psicologia. Mas tive muitos problemas com as psicólogas que me atenderam. Não me lembro bem, mas acho que eram estagiárias - apenas um pouco mais velhas do que eu, que tinha 17 anos. As conversas giravam em torno da vida sexual que eu não teria e de como isso poderia afetar o relacionamento com minha namorada. Era um absurdo! Meu foco era outro. Queria saber se poderia voltar a andar. A importância que dava ao namoro, naquele momento, era igual a zero. Fiquei indignado. Me senti agredido, invadido, desrespeitado. Tudo que aquelas 3 ou 4 mulheres que me atenderam conseguiram foi me fazer desacreditar da psicologia. Fiz tudo o que pude para demonstrar minha indignação. Xinguei, fui agressivo, cínico. Não adiantou. Só trocavam de psicólogas. Até que chamei o responsável pelo programa de atendimentos do hospital e disse que não queria mais saber de psicóloga alguma."
Thiago, 24 anos

"Sou, em grande medida, refém de uma situação da qual jamais saberei o motivo de ter sido escolhido. Não culpo o destino (não acredito nele). Tenho consciência de que, no dia do acidente, estava bêbado e fiz algo extremamente arriscado"
THIAGO SENE SILVA

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