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Mostrando postagens de Junho 27, 2008

Sem medo do escuro

Ruy, Thiago, Manuela e Marco viveram o luto de diferentes perdas quando se viram frente a frente com a deficiência

Reportagem: Silvia Marangoni

Foto: Fabio Braga

Fonte: Revista Sentidos



Tiago 24 Anos

Thiago Amaral de Azevedo Sene Silva, 24 anos, viajava com amigos da escola para Porto Seguro (BA) para celebrar a formatura do terceiro ano do ensino médio. Conversavam animadamente e bebiam cerveja. "Na frente de onde estávamos havia um pier. Resolvi mergulhar de cabeça, sem perceber que ali havia um banco de areia. Horas depois, estava em um avião fretado por meus pais, que me esperavam em São Paulo. Entrei no hospital com 1,80 m e 70 quilos. Meu corpo era atlético por conta dos vários esportes que praticava. Tive pneumonia, escaras e infecção urinária." Quarenta dias depois, ao ser colocado sentado na cama, assustou-se com o que viu. "Minhas pernas tinham quase a circunferência de meus punhos. Os dentes estavam amarelados e escuros, por causa dos antibióticos. Quase desmaiei.…
Manuela 50 Anos

Maria Manuela Alves da Cunha, 50 anos, portuguesa que vive no Brasil desde os 18, tem tetraparesia espástica (tensão muscular acentuada dos membros inferiores e superiores). Uma bactéria corroeu a mielina, que é responsável pela transmissão dos impulsos elétricos do cérebro para o corpo. "Caminho com andador, mas não perdi a sensibilidade dos membros. Apenas não tenho firmeza. Preciso travar os joelhos para andar, e me apoiar. Os movimentos que dependem de coordenação motora fina ficaram prejudicados, mas mantenho a força dos braços com ajuda de fisioterapia", conta.

Uma série de complicações de saúde depois disso e diagnósticos desencontrados a deixaram fragilizada a ponto de querer voltar para casa. Lá, foi diagnosticada como tendo doença de Addison - insuficiência adrenal aguda de base auto-imune que reduz os níveis de cortisol, o hormônio responsável por regular o organismo após situações de estresse. "Quando voltei ao Brasil, assumi um compromisso com…
Marco Antônio 43 Anos

O metroviário Marco Antônio Pellegrini, 43 anos, formado em matemática e pós-graduado em tecnologia assistiva, ficou tetraplégico (C3/C4) em 1991, também em conseqüência de um tiro de arma de fogo. Ele, que atua no departamento de recursos humanos do Metrô de São Paulo, na área de Responsabilidade Social, também é diretor das ONGs Centro de Vida Independente Araci Nallin (CVI-AN) e Amigos Metroviários dos Excepcionais (AME). "Restaram-me apenas movimentos de pescoço", conta. "Uso cadeira de rodas motorizada com joystick no queixo e digito com um apontador na boca ou direto no PalmTop." Sobre o acidente, conta que era uma noite de julho e ele estava de férias curtindo uma moto que comprara. "Bateu um incômodo, um sentimento de perigo iminente, interrompi o passeio e voltei. Mas fui abordado na porta de casa. Em frações de segundo tive de decidir: Estão armados? Um trezoitão e dois caras. Dou a moto? Dei. Xiiiii, não foram embora! E meu filh…
Ruy 60 anos

Quando a ficha cai, não há como se fazer de forte. Você, agora, possui uma deficiência. E ela vai acompanhá-lo pelo resto da vida. Primeiro, vem a perplexidade. "Por que eu?" Depois, a sensação de haver sofrido uma condenação - sem motivo aparente ou aviso prévio. Quer acordar do que tenta convencer-se ser um pesadelo, mas é cada vez mais tragado pela consciência de sensações novas que preferia não estar vivendo. Medo. Dor. Revolta. Incerteza. Começa a enumerar coisas que fazia e não poderá fazer nunca mais. Se pega duvidando que valha a pena viver e sente impulso de entregar-se. Chora. Ou não. Enfim, encara a verdade: sua vida mudou. E percebe que precisa decidir como quer vivê-la de agora em diante. A esse processo, do qual ninguém escapa, se dá o nome de luto. Histórias de quem já passou por isso, como as mostradas nesta reportagem, podem ajudar a atravessá-lo.

O psicólogo Ruy Fernando Barboza, 60 anos, também advogado e jornalista, perdeu o movimento da perna e…